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9 min de leitura

OTIF, lead time e giro de estoque: os indicadores que dizem a verdade sobre sua logística

Por Equipe Navor ·

Sem medir, a operação logística melhora no escuro. Entenda OTIF, lead time, giro de estoque e os KPIs que revelam a saúde real da cadeia.

Neste artigo

Por que a logística não se gerencia pela sensação#

Toda operação logística tem uma narrativa interna sobre si mesma. "Entregamos no prazo", "nosso estoque está sob controle", "somos rápidos". O problema é que narrativas não sobrevivem ao contato com os números. A diferença entre uma operação que melhora de verdade e uma que apenas sente que está melhorando é a existência de indicadores objetivos, medidos com rigor e acompanhados ao longo do tempo. Sem medir, a gestão logística toma decisões pela sensação — e a sensação, na logística, quase sempre é otimista demais.

Os indicadores de desempenho logístico — os KPIs, na sigla em inglês — existem para transformar a operação em algo que pode ser diagnosticado. Cada indicador é uma pergunta traduzida em número: estamos entregando o que prometemos? Quanto tempo levamos? Nosso capital está preso em estoque parado? Um bom conjunto de KPIs não descreve tudo, mas ilumina os pontos onde a operação mais frequentemente falha. Vamos aos que mais importam.

OTIF: o indicador que junta prazo e integridade#

O OTIF — On Time, In Full, ou "no prazo e completo" — é provavelmente o indicador mais honesto da logística de distribuição, porque ele se recusa a dar crédito parcial. Uma entrega só conta como OTIF se cumprir duas condições simultâneas: chegou no prazo acordado e chegou completa, com todos os itens, nas quantidades corretas, sem avarias. Faltou um item? Não é OTIF. Chegou um dia atrasado? Não é OTIF. Chegou tudo, no prazo, mas com uma caixa amassada e produto danificado? Também não.

Essa severidade é justamente o que torna o OTIF valioso. É comum uma operação exibir 98% de pontualidade e 97% de completude e concluir que está indo bem. Mas esses dois números não se somam — eles se multiplicam. Se as falhas de prazo e as de completude forem independentes, um OTIF real combinando ambos fica abaixo de cada um dos componentes isolados. O OTIF revela o que os indicadores parciais escondem: a experiência do cliente não é a média das suas métricas, é a interseção delas. O cliente que recebeu no prazo mas faltando itens não teve 97% de sucesso — teve uma falha inteira.

Medir OTIF corretamente exige disciplina na definição do "prazo acordado" e do "completo". Prazo prometido ao cliente ou prazo interno? Data de faturamento ou data de recebimento? Essas escolhas mudam o número, e a armadilha mais comum é medir contra um prazo interno frouxo que garante um OTIF alto sem que o cliente perceba melhora alguma. O indicador só serve se for medido contra a promessa real feita a quem recebe.

Lead time: o relógio que o cliente sente#

Se o OTIF mede a confiabilidade, o lead time mede a velocidade. É o tempo decorrido entre o momento em que o pedido é feito e o momento em que ele chega às mãos do cliente. Simples de definir, difícil de gerenciar — porque o lead time total é a soma de vários lead times menores, cada um com sua própria variabilidade.

Decompor o lead time é o que separa o diagnóstico útil do número inútil. O tempo total inclui o processamento do pedido, a separação no armazém, a espera pela expedição, o trânsito e a entrega final. Uma operação que mede apenas o total sabe que está lenta, mas não sabe onde. Uma que mede cada etapa descobre, por exemplo, que o transporte é rápido mas os pedidos ficam 18 horas parados entre a confirmação e o início da separação — um gargalo invisível para quem só olha o número agregado.

Mais importante do que a média do lead time é a sua variabilidade. Um lead time médio de três dias com variação de mais ou menos meio dia é uma operação previsível, na qual o cliente pode confiar. Um lead time médio de dois dias e meio, mas que às vezes é de um dia e às vezes de cinco, é uma operação pior — mesmo sendo mais rápida na média. A previsibilidade permite prometer prazos honestos; a variabilidade obriga a operação a inflar os prazos prometidos como margem de segurança, o que a torna menos competitiva. Na logística, consistência frequentemente vale mais do que velocidade bruta.

Giro de estoque: o dinheiro parado nas prateleiras#

Os dois indicadores anteriores olham para o fluxo de saída. O giro de estoque olha para dentro, para o capital imobilizado. Ele mede quantas vezes, em um período, o estoque inteiro foi vendido e reposto. Um giro de 12 ao ano significa que o estoque médio "vira" uma vez por mês; um giro de 4 significa que cada item fica, em média, três meses parado antes de sair.

O giro é, no fundo, um indicador financeiro disfarçado de logístico. Estoque parado é dinheiro parado — capital que foi gasto para comprar produto e que só volta ao caixa quando o produto é vendido. Quanto mais lento o giro, mais capital fica preso, mais espaço de armazém é ocupado, mais risco de obsolescência e mais custo de armazenagem se acumula. Um giro alto libera capital, reduz o risco de o produto encalhar e mantém o armazém enxuto.

Mas giro alto não é automaticamente melhor, e essa é a nuance que separa quem entende o indicador de quem apenas o persegue. Giro alto demais pode significar que o estoque está sempre no limite, e que qualquer pico de demanda ou atraso de reposição vira uma ruptura — a prateleira vazia, a venda perdida. O giro ideal equilibra a eficiência do capital com a segurança do abastecimento, e esse equilíbrio depende diretamente das políticas de reposição e estoque de segurança, tema que aprofundamos em nossa análise de gestão de estoque. O giro não é uma meta a maximizar; é um sintoma a equilibrar.

Os indicadores que completam o quadro#

OTIF, lead time e giro formam o núcleo, mas alguns indicadores complementares fecham o diagnóstico. A acuracidade de inventário compara o estoque registrado no sistema com o físico contado — e quando ela é baixa, contamina todos os outros números, porque uma operação que não sabe o que tem não consegue prometer nada com honestidade. A taxa de ruptura (stockout) mede quantas vezes um item procurado não estava disponível, capturando a venda que nunca aconteceu por falta de produto.

Do lado do transporte, o custo por pedido e o custo de frete como percentual da receita revelam se a operação está ficando mais cara à medida que cresce. A taxa de sucesso na primeira tentativa de entrega captura a eficiência da última milha. E o ciclo de pedido perfeito — pedidos entregues sem nenhum erro em nenhuma etapa — é talvez o indicador mais exigente de todos, uma versão ainda mais severa do OTIF que inclui documentação correta, faturamento sem divergência e produto sem avaria.

A frequência certa e a comparação honesta#

Um indicador só ganha sentido quando ganha contexto, e o contexto vem de duas dimensões que a gestão frequentemente descuida: a frequência de medição e a base de comparação. Medir OTIF uma vez por trimestre é medir tarde demais — quando o número chega, a falha que ele denuncia já aconteceu dezenas de vezes e o cliente já sentiu. Cada indicador tem um ritmo natural. OTIF e falhas de entrega pedem acompanhamento diário ou semanal, porque a ação corretiva precisa ser rápida. Giro de estoque pede acompanhamento mensal, porque muda devagar e reagir a ele todo dia seria ruído. Casar a frequência de medição com a velocidade do fenômeno é o que impede tanto a cegueira quanto o excesso de alarme.

A base de comparação é o segundo contexto. Um OTIF de 94% é bom ou ruim? A resposta depende de contra o quê se compara. Contra a meta acordada com o cliente, contra o mês anterior, contra o mesmo período do ano passado — cada comparação conta uma história diferente. Um número isolado não informa; um número em série temporal, sim. A tendência revela o que o valor pontual esconde: uma operação com OTIF estável em 92% está em situação diferente de uma que caiu de 97% para 92% em três meses, mesmo que ambas exibam o mesmo número hoje.

Há ainda a sazonalidade, que engana a leitura ingênua. Comparar o giro de estoque de dezembro com o de fevereiro, sem ajustar para o pico de fim de ano, produz conclusões falsas. A comparação honesta respeita o ciclo natural do negócio, confrontando períodos equivalentes. O indicador comparado contra a base errada não apenas falha em informar — ele informa errado, o que é pior do que não medir, porque dá confiança a uma conclusão falsa.

O erro de medir tudo e não decidir nada#

Há um risco na direção oposta da falta de medição: o excesso. Operações que descobrem o valor dos KPIs às vezes reagem construindo painéis com dezenas de indicadores, atualizados em tempo real, coloridos, e que ninguém olha para tomar decisão. Medir sem agir é apenas uma forma mais cara de não gerenciar.

Um bom conjunto de indicadores é pequeno o suficiente para caber na cabeça de quem decide, e cada indicador precisa ter um dono, uma meta e uma consequência. O OTIF caiu abaixo da meta? Alguém precisa investigar por quê e agir esta semana, não daqui a um trimestre. O giro travou? A política de compras precisa ser revista. O indicador que não dispara nenhuma ação quando sai do trilho não é um indicador de gestão — é um enfeite de relatório.

Medir para melhorar, não para justificar#

A tentação final, e a mais perigosa, é usar indicadores para justificar em vez de para melhorar. Escolher a definição de OTIF que dá o número mais bonito, medir o lead time contra o prazo mais frouxo, comparar o giro com o trimestre pior. Isso transforma a medição em teatro, e o teatro custa caro porque cria a ilusão de controle sobre uma operação que segue derivando.

A disciplina de indicadores só entrega valor quando é usada com honestidade desconfortável: definir cada métrica contra a promessa real, medir com rigor mesmo quando o número machuca, e tratar cada desvio como um problema a resolver e não como um dado a explicar. A operação logística que faz isso descobre, mês após mês, exatamente onde está perdendo prazo, dinheiro e confiança — e essa descoberta, por mais desconfortável que seja, é a única base sólida sobre a qual qualquer melhoria real se constrói.

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